Deborah Dinorah de Sá Mororó é enfermeira, especialista em epidemiologia e doutora em enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Atua como servidora pela UFRN há 23 anos, e desde 2014, é lotada no Hospital Universitário Onofre Lopes.
Deborah, desde 2014, coordena o Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Criança, área em que fez seu doutorado.
As residências multiprofissionais em área profissional da saúde foram criadas a partir da promulgação da Lei n° 11.129 de 2005, e são orientadas pelos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), a partir das necessidades e realidades locais e regionais, e abrangem as profissões da área da saúde: Biomedicina, Ciências Biológicas, Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina Veterinária, Nutrição, Odontologia, Psicologia, Serviço Social e Terapia Ocupacional (Resolução CNS nº 287/1998).
A jornada foi longa na conquista desse grande avanço na formação de profissionais de enfermagem, odontologia, psicologia, nutrição e serviço social para atuarem em equipes de saúde. E os desafios enfrentados não foram poucos, sejam durante o aprendizado em sala de aula, seja na atuação de campo nas mais variadas unidades de saúde do município de Natal. Mas o resultado é único: uma trajetória vitoriosa para todos, tanto para os coordenadores do curso, quanto para os mais profissionais que passaram por esta Residência.
Deborah conta que desde que foi implantado o Programa de Residência, ela e suas colegas de trabalho lutaram para garantir editais para seleção dos residentes. Ela acredita que somente uma saúde integrada é capaz de oferecer o cuidado completo, pois o enfermeiro é complementado pelo conhecimento do nutricionista, do psicólogo, do assistente social, do fisioterapeuta e todas as demais áreas.
Em sua fala, Deborah destaca a importância de se entender a Residência como uma modalidade diferenciada de formação, ‘favorecendo o encontro entre conhecimentos teóricos e práticos e, sobretudo, a articulação entre a teoria, a sala de aula, a discussão de casos, os serviços e a oferta do cuidado’ e reafirma o comprometimento institucional da UFRN em uma maior consolidação desta modalidade de ensino.
O cargo de coordenação do Programa de Residência exige de Deborah uma articulação invejável: coordena todos os processos seletivos de residência multiprofissional, que ocorrem todos os anos; organiza e atualiza o Sistema de Gestão de Atividades Acadêmicas (SIGAA) dos residentes; orienta na produção de artigos e trabalhos acadêmicos; oferece encontros para as discussões de casos clínicos que os alunos se deparam ao longo da prática nos hospitais e Unidades Básicas de Saúde; dá aulas; oferece cursos e discussões de artigos; faz visita às enfermarias e organiza os eixos teóricos comuns [de todos as áreas] e os específicos [para cada curso], que vão guiar a melhor aprendizagem de todos os futuros profissionais.
A Residência é uma modalidade diferenciada de formação, favorece o encontro entre conhecimentos teóricos e práticos e, sobretudo, a articulação entre a academia e os serviços. Sua expansão no Brasil é fundamental para uma formação adequada às diretrizes do SUS. Esta importância adquire um significado especial no caso das residências multiprofissionais, uma vez que elas estão orientadas por uma visão diferenciada da atenção e do cuidado, na qual, não apenas as diferentes competências profissionais são reconhecidas, mas devem efetivamente estar integradas. Deborah se sente honrada em coordenar um Programa tão valoroso quanto esse, por perceber o efeito gigantesco que pode proporcionar ao modelo de saúde, hoje, ainda pouco resolutiva, como nas unidades de baixa complexidade. “A unidade básica precisa ser resolutiva. 80% das situações de saúde podem ser resolvidas com um fortalecimento da UBS.”
A Residência Multiprofissional em Saúde da Família vem contribuindo para que se rompa com a lógica tradicional de delimitação estreita de fronteiras profissionais, promovendo a integração entre saberes e práticas multiprofissionais no cotidiano das equipes de atenção à saúde. Penso ser esta orientação fundamental para o SUS que queremos. “A residência Multiprofissional muda a lógica do trabalho fragmentado, rompe com os processos de trabalho e favorece uma mudança em todo o Sistema de Saúde”, comenta Deborah Mororó.
A composição de uma Equipe Multidisciplinar é feita por profissionais de diversas áreas, ou seja, com formações acadêmicas diferentes e que trabalham em prol de um único objetivo. No trabalho em equipe multiprofissional há a necessidade de uma inter-relação entre os diferentes profissionais que devem ver o paciente como um todo, numa atitude humanizada, e não trabalhar de forma isolada sua especialidade, e compreendendo a necessidade real do paciente e de seus tutores naquele momento ou caso específico.
Deborah afirma ser preciso desenvolver um trabalho conjunto no qual os profissionais se envolvam na assistência, de acordo com seu nível de competência específico, e possam oferecer um saber capaz ajudar a solucionar os casos mais simples ou mais complexos.
A enfermeira e doutora em enfermagem conta que recentemente, muitas iniciativas importantes vêm ocorrendo, entre elas, no ano de 2008, a criação dos Núcleos Ampliados de Saúde da Família (NASF-AB), criados pelo Ministério da Saúde com o objetivo de apoiar a consolidação da Atenção Básica no Brasil, ampliando as ofertas de saúde na rede de serviços, assim como a resolutividade, a abrangência e o alvo das ações. Atualmente regulamentados pela Portaria nº 2.488, de 21 de outubro de 2011, configuram-se como equipes multiprofissionais que atuam de forma integrada com as equipes de Saúde da Família (eSF), as equipes de atenção básica para populações específicas (consultórios na rua, equipes ribeirinhas e fluviais) e com o Programa Academia da Saúde.
Esta atuação integrada permite realizar discussões de casos clínicos, possibilita o atendimento compartilhado entre profissionais tanto na Unidade de Saúde como nas visitas domiciliares, permite a construção conjunta de projetos terapêuticos de forma que amplia e qualifica as intervenções no território e na saúde de grupos populacionais. Essas ações de saúde também podem ser intersetoriais, com foco prioritário nas ações de prevenção e promoção da saúde.
A criação do NASF foi de extrema importância para criar a cultura da integração e do cuidado completo nas Unidades Básicas de Saúde. Deborah conta que muitos dos residentes atuam juntos à Saúde da Família e que o papel do Estado na formação dos profissionais e trabalhadores permanece como desafio. Nessa perspectiva, o NASF para o Brasil representa uma mudança decisiva, não apenas pelo provimento em locais, até então, fora do mapa da atenção à saúde, como especialmente pelas mudanças na formação profissional, com a ênfase no papel das redes de atenção nos diferentes níveis de complexidade e da atenção básica na organização do acesso e coordenação do cuidado no sistema de saúde.
O trabalho de Deborah Mororó na Universidade Federal do Rio Grande do Norte começa no cuidado, permeia toda uma rede de ensino e têm suas raízes espalhadas por toda a eternidade. O residente que passa pelas suas orientações e é guiado por ela, têm seu conhecimento multiplicado e isso reflete no paciente que é atendido por ele em toda a sua trajetória profissional. Salvar vidas, prevenir doenças, oferecer um cuidado completo e com dignidade, forma uma rede de saúde humanitária e recebe um chamado à construção conjunta do SUS e de uma sociedade com mais justiça, menos iniquidades e, dessa forma, com mais saúde.
MORORÓ, Deborah Dinorah de Sá. O trabalho do enfermeiro de um hospital pediátrico de ensino e o SUS: desafios a enfrentar. Natal, 2006.
https://repositorio.ufrn.br/jspui/bitstream/123456789/14768/1/DeboraDSM.pdf


